lindolfo monteverde
Desde o começoNascido em 1902, ainda no período áureo da borracha no Amazonas, Lindolfo conviveu com nordestinos que vieram à procura do ‘ouro branco’. Vizinho de muitos migrantes, o menino escutava toadas sobre vários lugares, especialmente do Maranhão. As músicas antigas falam da Praça do Lençol, para citar um exemplo.
Fred Góes adianta que, a partir dos 11 anos, Lindolfo já começa o arquétipo formal de bumbá. O menino usava o curuatá (proteção onde fica em cima do inajá e tem forma de canoa) e bailava pela casa dos avós. O ornamento lembra o boi: na frente há uma espécie de rosto triangular e atrás um rabo.
“O criador passava por um processo de aprendizagem. Ele morava na Baixa do São José, reduto de nordestinos, que já brincavam de bumba meu boi. É quando Lindolfo resolve criar o Garantido, com características amazônicas”, assinalou o artista.
O coração na testa do Vermelho tem origem no amor ao filho Antonio. O pai Monteverde faz uma promessa à Nossa Senhora do Carmo pela cura da enfermidade da criança. Com o pequeno tendo saúde, o juramento é cumprido.
Centenários
O rival Caprichoso também trás, este ano, o centenário do bumbá. O Azul salienta sua fundação, antes do Boi Vermelho. A resposta de Goes é imediata: “Não temos intenção de desmentir informações, estamos nos aprofundando. Se é primeiro ou segundo, somos uma festa fundada em cima de um processo de rivalidade. É importante para todos ter um marco. Tudo isso faz parte da própria história do Amazonas, de seu processo cultural. Lindolfo sabia o que estava fazendo, mesmo aos 12 anos”, opinou.
Boi de promessa: Garantido nasceu da teimosia de Lindolfo Monteverde
‘Eu me garanto’, essa foi a frase que Lindolfo lançou
há cem anos. Desafio continua a ser enfrentado até hoje com muita raça e
amor
“Adeus
que eu já vou embora. Não me despeço de ninguém para ninguém me
perguntar: cabra bom quando tu vens?”. Esse foi o verso que Lindolfo
Monteverde escolheu para se despedir da filha Maria do Carmo, no leito
de morte, e ao mesmo tempo da metade vermelha e branca da ilha de
Parintins, que, graças a ele, há um século tem um boi para chamar de
seu: o Boi Garantido. A história desse boi centenário começa em 1913,
com a teimosia de Lindolfo, menino de 11anos. Impressionado comas
manifestações folclóricas dos nordestinos residentes na periferia de
Parintins, principalmente as apresentações do Bumba Meu Boi, ele
insistiu para que a família o ajudasse a levar para a rua a brincadeira
que mais o divertia no terreiro de casa, na Baixa do São José. O menino
queria ser dono de um boi e exibi-lo na rua.
Promessa
“Ele
queria brincar de boi. Os avós perceberam a vontade dele, a
criatividade que ele tinha, e o ajudaram. Minha avó dizia que ele só
falava nisso”, conta Maria do Carmo Monteverde, de 75 anos. A
brincadeira, que o Escritor Dé Monteverde, neto de Lindolfo menino
começou com um boi forjado em Curuatá (casca que envolve o cacho dos
frutos da palmeira inajá), já era mais do que sólida apenas pela paixão
de Lindolfo pela arte. Mas se fortaleceu de vez na promessa que ele fez a
São João Batista.
Debilitado pela
malária, Lindolfo, já adolescente, prometeu ao santo que enquanto fosse
vivo não deixaria de colocar o boi na rua. A saúde veio, e o Boi
Garantido,há cem anos, não falha. Mestre Lindolfo, como ficou conhecido,
viveu até os 77anos, 66 deles dedicados ao boi do povão. João Batista
Monteverde, de 71 anos, que herdou do pai o posto de Amo do Boi (onde
ficou por32 anos), diz que muitos bumbás e brincadeiras desapareciam de
Parintins após a morte de seus inventores. Com o Garantido foi
diferente: “O fator principal foi a criatividade do boi. E meu pai era
um homem festeiro, isso chamava a atenção do povo daquele tempo. Tem
ainda a obediência às datas. Todo ano, a pessoa chegava naquele dia e ia
encontrar a festa”.
Longe de
qualquer posto relevante dentro do Boi Garantido, Maria e João, os
únicos filhos vivos de Lindolfo, expressam o amor pela criação do pai
deles ajudando, todos os anos, o boi do povão a se apresentar no
Bumbódromo, seja na batucada, seja empurrando uma alegoria na arena.
Birra de menino fez história
Foi
do diálogo que teve com a mãe, na insistência de levar a brincadeira do
boi bumbá para a rua que Lindolfo Monteverde batizou seu boi de
Garantido.
Na teimosia do menino em
ter um boi, a mãe dele (Alexandrina), sabendo das responsabilidades que
envolvia fazer a brincadeira na rua, questionou ele: “Acho que você não
se garante, Lindolfo”. E ele retrucou: “Eu me garanto”. “Ele foi essa
pessoa abençoada para levar o boi do nordeste, que era muito limitado, a
se expandir para o que é hoje o boi de Parintins”,afirma o professor e
escritor Dé Monteverde, 42,neto de Lindolfo.
Dé
é coordenador de Figura Típica Regional do Boi Garantido, um dos itens
avaliados na apresentação dos bumbás de Parintins. Ele também tem se
dedicado nos últimos anos a registrar em livros a história da família
Monteverde e do boi vermelho e branco.
“O
boi Garantido, a brincadeira de boi, cresceu, tomou essa proporção pela
ousadia de meu avô. E as gerações seguintes entenderam isso e
expandiram a brincadeira”, comenta Dé.
Três perguntas para Fred Goes – Comissão de Arte do Garantido
1º Como Lindolfo Monteverde teve contato com a brincadeira de boi?
No período áureo da Borracha, quando vieram 500mil nordestino para a Amazônia. Nessa leva, parte veio para Parintins.
2º Qual a contribuição do Lindolfo para o boi de Parintins?
O
formato que o boi tem hoje veio muito das ideias do Lindolfo. E há de
se ressaltar o fato dele ser um caboclo, que superou preconceitos com a
arte.
3º Quais preconceitos, por exemplo?
No
período dele, brincadeira de boi era coisa de preto, pobre e vagabundo.
Isso no Brasil inteiro. O centenário consagra essa ‘virada’.
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